Apagão dos professores: o que o futuro nos aguarda?
Vai faltar professor, cada vez menos gente quer entrar na sala de aula e já existe escola em que a criança estuda com IA. Fui atrás dos números. E da parte que cabe a nós.

Vou começar com uma confissão. No último podcast, eu disse que um estudo mostrava que, a partir de 2040, a gente não teria mais professores. Fui atrás do estudo para escrever este texto. E o número certo é outro.
Não é que não vai ter professor nenhum. É que vai faltar muito professor. E o motivo não está só no salário. Está dentro das nossas casas também.

Esse é o trecho em que eu conto que estava no hiperfoco estudando o tema. Agora, com os números na mão, vamos por partes.
O que é o apagão dos professores
O nome vem de um estudo do Instituto Semesp, de 2022. A conta é simples. Hoje o Brasil tem cerca de 20 crianças e jovens de 3 a 17 anos para cada professor. Para manter essa proporção, vamos precisar de 1,97 milhão de professores em 2040.
Só que, no ritmo atual, o número de professores cai 20,7% até lá. Sobram 1,74 milhão. A diferença é um déficit de 235 mil professores na educação básica.
Não é o fim da profissão. É uma sala sem professor aqui, uma disciplina sem titular ali, um substituto que muda todo mês. E quem sente primeiro é a criança.
Cada vez menos gente quer ser professor
O Censo da Educação Superior 2024, do Inep, mostra o tamanho do problema na porta de entrada.
- 205.697 pessoas se formaram em licenciatura em 2024. Foram 11,5% a menos do que em 2023. E menos até do que em 2014.
- 68,5% das matrículas de licenciatura já são a distância. Só 31,5% são presenciais.
- Entre 2010 e 2020, os ingressantes em licenciatura presencial caíram 37,6%, segundo o Semesp. E, no EAD, um em cada três não termina o curso.
E o sonho de ser professor está sumindo cedo. No PISA 2015, só 2,4% dos estudantes brasileiros de 15 anos disseram que esperavam ser professores aos 30 anos. Entre os meninos, 1,7%. A média dos países da OCDE era 4,2%.
Pensa comigo: quantas crianças você conhece que dizem que querem ser professoras quando crescerem?
Quem está na sala está envelhecendo
A segunda edição do estudo do Semesp, apresentada em setembro de 2026, olhou para o ensino médio público entre 2015 e 2025. O retrato é de uma profissão que não se renova.
- Professores com até 24 anos caíram de 17,3 mil para 11,9 mil. Uma queda de 31,1%.
- Professores com 60 anos ou mais foram de 18,2 mil para 37,3 mil. Mais que dobraram.
- Hoje entra cerca de um professor jovem para cada três perto da aposentadoria. Se nada mudar, em 2040 será um para cada seis.
- Os temporários já são 43,4% do quadro. Eram 32,2%.
E tem mais uma camada. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, só 60,4% das aulas dos anos finais do fundamental são dadas por professores com formação adequada na disciplina. Ou seja, cerca de 4 em cada 10 aulas ficam com alguém que não se formou naquela matéria.
Por que eles estão desistindo
Numa pesquisa do Semesp com 444 professores, de 2024, 79,4% disseram que já pensaram em abandonar a docência. Quase 7 em cada 10 se sentem inseguros, desanimados e frustrados com o futuro da profissão. E 52,3% já sofreram algum tipo de violência no trabalho.
Entre os motivos, aparecem a falta de valorização, a indisciplina e a falta de interesse dos alunos, e o pouco envolvimento das famílias. Sim, das famílias. Da gente.
Eu sempre digo que o professor tem que fazer um circo para ter a atenção da criança. O professor está competindo com um aparelho que foi desenhado por engenheiros para não deixar ninguém largar.
Não é só no Brasil
O relatório global sobre professores da UNESCO, de 2024, estima que o mundo vai precisar de 44 milhões de professores até 2030. E a taxa de abandono dos professores do ensino primário quase dobrou: de 4,62% em 2015 para 9,06% em 2022. Muitos saem nos primeiros cinco anos de carreira.
Nos Estados Unidos, a pesquisa anual da RAND mostrou que 18% dos professores pretendiam deixar o emprego em 2026. Em 2025, a jornada média era de 49 horas por semana, 10 a mais do que o contrato. E 30% têm um segundo emprego.
E aí aparece a escola feita com IA
Foi aqui que o podcast ficou quente. Eu contei que estava ouvindo um episódio sobre a Alpha School, uma escola nos Estados Unidos em que a criança estuda com uma inteligência artificial personalizada para ela.

Fui checar tudo. Olha o que é fato:
- A Alpha School nasceu em 2014, em Austin, no Texas, fundada por MacKenzie Price.
- O modelo se chama 2 Hour Learning. As matérias acadêmicas ficam em cerca de duas horas por dia, num software adaptativo com IA.
- O resto do dia é para projetos, esportes, artes e habilidades de vida, como educação financeira e falar em público.
- Os adultos não se chamam professores. Se chamam guias.
- A anuidade em Austin é de US$ 40 mil. Na rede, vai de US$ 10 mil a US$ 75 mil por ano, dependendo da cidade.
E agora o que é propaganda. A escola diz que as turmas aprendem duas vezes mais rápido e ficam no top 1% do país. Esse resultado é divulgado pela própria escola, com provas que ela mesma aplica. Não existe, até agora, uma avaliação independente. E um pesquisador de Stanford lembrou o óbvio: é uma escola cara, com filhos de famílias de alta renda, que já tendem a ir bem em provas.
Também saíram reportagens duras. A revista WIRED ouviu pais que se encantaram com a promessa e depois quiseram sair, com relatos de pressão por metas do software, ansiedade e câmera ligada o tempo todo. O site 404 Media publicou documentos internos que admitem que aulas geradas por IA às vezes fazem mais mal do que bem.
O modelo já chegou à escola pública. No Arizona, uma escola virtual gratuita com o mesmo formato, a Unbound Academy, foi aprovada em dezembro de 2024, por 4 votos a 3. Na Pensilvânia, um pedido parecido foi negado porque o modelo foi considerado não testado.
O que o futuro nos aguarda
Posso ser sincera? Eu trabalho com inteligência artificial há anos. E eu acho que a IA vai, sim, entrar na sala de aula. Ela já entrou: segundo a pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, 43% dos professores do fundamental e do médio usam IA generativa para preparar as aulas.
O que me preocupa é outra coisa. Na mesma pesquisa, só 19% dos alunos disseram que algum professor conversou com eles sobre como usar a IA nas atividades da escola. A ferramenta chegou antes da conversa.
E tem um risco que ninguém está falando. Um futuro em que a família rica paga US$ 40 mil por ano por IA com guias bem pagos, e a família pobre fica com a IA sozinha, porque faltou professor. Tecnologia sem gente não educa. Treina.
Um tutor de IA pode explicar fração cem vezes sem perder a paciência. Mas ele não percebe que a criança chegou com fome. Não segura a mão de quem perdeu o avô. Não diz não quando precisa. Isso é trabalho de gente.
Criamos o Filhos na Era Digital justamente para isso: dar ferramentas para pais e professores fazerem a sua parte. Escolha por onde começar.
Para pais e avós: o curso completo Pais no Comando da Era Digital, e os cursos por tema Tela e Criatividade, Educar na Era Digital, Anedonia e Proteção Real.
Para professores: o curso Tecnologia na Educação, feito para quem está na sala de aula.
Para a escola inteira: a palestra Escola e Família no Comando, para pais e professores, e as palestras por idade: 0 a 3, 4 a 6, 7 a 10, 11 a 14 e 15 a 17 anos.
Nenhum curso resolve sozinho. O que muda a história é o adulto que decide estudar e agir. Em casa e na escola.
E o que a família tem a ver com isso
Tudo. O apagão não vai ser resolvido só em Brasília. Ele começa a ser resolvido na mesa do jantar.
- Fale bem do professor na frente do seu filho. A criança aprende a respeitar quem os pais respeitam.
- Empreste o freio em casa. Rotina de sono, tela com hora combinada e o não sem culpa chegam junto com a criança na escola. E deixe seu filho ficar entediado de vez em quando.
- Não terceirize a educação. Nem para a escola, nem para o tablet, nem para a IA. Veja como usar a IA na lição de casa sem que ela faça tudo sozinha.
- Converse com a escola. Pergunte como ela usa a tecnologia e combine a mesma língua em casa.
- Se o seu filho sonha em ser professor, celebre. Esse sonho está ficando raro.
A escola do futuro que eu defendo
Então eu sou contra a IA na escola? Não. Eu acredito num meio termo. E ele não é morno. É o melhor dos dois lados.
Imagine uma inteligência artificial que prepara o conteúdo e a aula sob medida para cada aluno. No ritmo dele. Com os exemplos que fazem sentido para ele. Revendo o que ele errou ontem e avançando no que ele já domina. Isso a tecnologia já sabe fazer, e vai fazer cada vez melhor.
Agora imagine, ao lado de cada aluno, uma pessoa. Alguém paciente, focado, que sabe tirar a dúvida na hora certa e orientar quando a criança trava. Que percebe o desânimo antes da nota cair. Que motiva, cobra e lidera. Que diz "você consegue" e também diz "agora não".
A IA personaliza. A pessoa educa. Uma não substitui a outra.
E tem mais uma coisa que eu acredito que vai mudar. Se a IA resolve a parte do conteúdo em menos tempo, sobra tempo no dia. E esse tempo não pode virar mais tela. Eu imagino uma escola que intercala a aula personalizada com muitos momentos longe da tela e até fora da sala de aula.
Aulas de colocar a mão na massa. Fazer comida. Cuidar da casa e do espaço onde se vive. Artes, instalações, marcenaria, jardinagem, horta. Consertar, construir, errar e tentar de novo com as próprias mãos. É ali que a criança aprende paciência, trabalho em equipe, responsabilidade e o prazer de ver uma coisa pronta que ela mesma fez. Nenhum aplicativo ensina o cheiro da terra molhada ou o orgulho de servir o bolo que saiu do forno.
Quanto mais inteligente a tecnologia ficar, mais valor vão ter as habilidades que só se aprendem com o corpo inteiro, com outras pessoas e com um adulto por perto.
Essa é a escola que eu gostaria para as minhas filhas. E, para ela existir, o professor não some. Ele muda de papel: deixa de passar o dia repetindo a mesma explicação para trinta alunos e passa a fazer o que só gente faz. Olhar nos olhos, orientar e conduzir. Para isso, ele precisa de formação, de tempo e de valorização. Sem isso, a IA não vira apoio. Vira desculpa para colocar menos gente na sala.
- Para a escola: use a IA para personalizar o conteúdo, nunca para tirar o adulto da sala. E invista na formação de quem vai orientar os alunos.
- Para o professor: aprenda a IA antes que ela chegue sem você. Quem domina a ferramenta decide como ela entra na aula.
- Para os pais: desconfie de qualquer escola que venda "só IA" como avanço. Pergunte quem vai orientar o seu filho quando ele travar.
O futuro da escola não é a máquina no lugar do professor. É a máquina fazendo o trabalho repetitivo para o professor ter tempo de ser professor.
As fontes deste artigo
- Instituto Semesp. Risco de apagão de professores no Brasil, 2022.
- Instituto Semesp. Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, 2ª edição, 2026. Via Agência Brasil.
- Inep/MEC. Censo da Educação Superior 2024: Notas Estatísticas, 2025.
- OCDE. Effective Teacher Policies: Insights from PISA, 2018 (dados do PISA 2015).
- Todos Pela Educação. Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, capítulo Professores.
- Instituto Semesp. Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil, 2024.
- UNESCO. Global report on teachers, 2024.
- RAND. Teacher Well-Being, Pay, and Intentions to Leave in 2026.
- CBS News. Alpha School e a inteligência artificial, 2025. Unidades e anuidades da Alpha School.
- 404 Media. Students Are Being Treated Like Guinea Pigs, 2026. WIRED, Parents Fell in Love With Alpha School's Promise. Then They Wanted Out, 2025.
- Cetic.br. TIC Educação 2024: Resumo Executivo, 2025.
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