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Família2 de outubro de 20268 min de leitura

Seu filho consome ou cria tecnologia? O que cem alunos de escola pública ensinam com dois satélites

Estudantes de Sorocaba e Fortaleza montaram satélites que a SpaceX levou ao espaço para resolver problemas da própria cidade. Enquanto isso, muita criança só rola o feed. A diferença não está no aparelho. Está na pergunta que a gente faz.

Seu filho consome ou cria tecnologia? O que cem alunos de escola pública ensinam com dois satélites

Vou fazer uma pergunta que incomoda: nas últimas 24 horas, o seu filho criou alguma coisa com a tecnologia, ou só consumiu?

Não vale responder "ele vive no celular, então entende tudo". Saber deslizar o dedo não é entender tecnologia. É como dizer que quem come muito sabe cozinhar.

Cem alunos, dois satélites

No dia 1º de outubro de 2026, um foguete Falcon 9 da SpaceX decolou da Califórnia levando dois satélites pequenos, o EduSat-2 e o EduSat-3. Quem montou foram cerca de 100 estudantes do ensino fundamental, médio e técnico de escolas públicas de Sorocaba (SP) e de Fortaleza (CE), pelo programa Escola em Órbita, da Agência Espacial Brasileira em parceria com a startup Ideia Space.

Antes de montar, eles aprenderam programação, eletrônica e uso de sensores. Depois, montaram os sistemas de energia, os painéis solares, o computador de bordo, a comunicação e o controle de orientação. Fizeram testes elétricos. Definiram para que serviria cada missão.

E aqui está a parte que mais me emociona: os alunos escolheram problemas da própria cidade. Em Sorocaba, a ideia é ajudar a monitorar áreas que alagam. Em Fortaleza, testar a transmissão de dados em regiões com pouco acesso à internet. Não é tecnologia pela tecnologia. É tecnologia para resolver a vida de quem mora ali.

Repare: ninguém deu um tablet para essas crianças e esperou que elas virassem engenheiras. Alguém sentou do lado, ensinou o básico, deixou errar e deu um problema de verdade para resolver.

O NPC da vida real

Nos jogos, NPC é o personagem que não é controlado por ninguém. Ele anda de um lado para o outro, repete a mesma fala e segue o roteiro. Eu uso essa imagem para falar de uma coisa que me preocupa: a criança que só consome o feed. Rola, assiste, curte, rola de novo. Segue o roteiro que o algoritmo escreveu.

O app é gratuito, mas alguém está pagando a conta. Se você não paga pelo produto, o produto é você. E o tempo do seu filho é a moeda.

Os números mostram que as crianças brasileiras já usam a tecnologia mais avançada que existe. A TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, mostrou que 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usaram inteligência artificial generativa. A maioria usou para pesquisa escolar. Só 21% usaram para criar conteúdo. A ferramenta está na mão. O que falta é a pergunta certa: o que você vai fazer com isso?

E aí me caiu a ficha

Eu sou nerd, filha de nerd. Meu pai era técnico da HP, e eu tive computador em casa aos 9 anos, com internet discada. Eu não aprendi tecnologia assistindo. Aprendi abrindo, quebrando, perguntando e consertando. Cada coisa que funcionava era uma pequena vitória.

Hoje, tudo chega pronto. O vídeo chega pronto, a resposta da IA chega pronta, o jogo chega pronto. E aí a criança perde justamente o que me formou: o caminho. O erro, o teste, a nova tentativa.

Toda criança é cientista. Ela levanta uma hipótese, testa, erra e tenta de novo. O problema é que a tela entrega a resposta antes da pergunta. E sem pergunta não tem curiosidade. Sem curiosidade não tem criação.

Criar não é coisa de gênio

Você não precisa de um satélite em casa. Criar com tecnologia começa muito antes disso, e muitas vezes começa longe da tela. O próprio Scratch, a linguagem de programação para crianças criada no MIT, nasceu da ideia de que as crianças aprendem melhor criando projetos, brincando e compartilhando com outras pessoas.

E a escola brasileira já tem o caminho no papel. Desde 2022, a BNCC Computação inclui pensamento computacional, mundo digital e cultura digital como parte do que os alunos devem aprender. Não é aula de digitação. É aprender a pensar como quem constrói.

A régua de casa: consumir, usar, criar

Eu proponho um exercício simples. Durante uma semana, observe o tempo de tela do seu filho e separe em três colunas:

  • Consumir: rolar o feed, assistir vídeo atrás de vídeo, jogar sempre o mesmo jogo.
  • Usar: pesquisar para um trabalho, falar com a avó por vídeo, ouvir uma história.
  • Criar: gravar e editar um vídeo, programar um jogo, montar uma apresentação, compor uma música, fazer um projeto com as mãos a partir de um tutorial.

A meta não é zerar a primeira coluna. Nem tela zero, nem tela livre. A meta é a terceira coluna crescer um pouco a cada semana. Devagar e sempre.

O que fazer em cada idade

  • De 7 a 10 anos. Comece sem tela: montar, desmontar, construir com sucata, fazer um terrário, testar hipóteses ("o que acontece se...?"). Depois, apresente o Scratch Jr. ou o Scratch, junto com ele. E deixe o tédio acontecer, porque é o tédio que gera a criatividade. Falei disso em IA, atenção e tédio.
  • De 11 a 14 anos. Troque "sai do celular" por "me mostra o que você consegue fazer com ele". Um vídeo editado sobre um tema da escola. Um jogo simples programado. Um problema do bairro que ele gostaria de resolver. E use a IA como ajudante, não como quem faz por ele. Escrevi um guia em IA na lição de casa.
  • De 15 a 17 anos. É a idade de projetos reais: olimpíadas de robótica e de programação, iniciação científica, clubes de ciência, um canal sobre algo que ele domina. Pergunte quais problemas ele vê ao redor. Foi assim que nasceu a missão dos satélites.

E o nosso exemplo?

Antes de cobrar, faça o teste com você. Nas suas últimas 24 horas de celular, quanto foi criar e quanto foi rolar? Eu faço esse teste e nem sempre passo. A diferença é que agora eu percebo.

Seu filho aprende mais com o que você faz no celular do que com o que você diz sobre ele. Se ele te vê aprendendo algo novo, errando e tentando de novo, ele entende que a tecnologia pode ser ferramenta, e não só entretenimento. Escrevi sobre isso em O exemplo dos pais.

O futuro não é dos mais técnicos. É dos mais humanos: dos que fazem perguntas, criam soluções e usam a tecnologia para cuidar de gente. Aqueles cem alunos mostraram que isso cabe em uma escola pública. Cabe na sua mesa da cozinha também.

Para ir além

No curso Tela e Criatividade, você entende por que o tédio é o treino da imaginação e recebe 30 dias de atividades por idade para trocar tela por brincar e criar, sem briga. No Pais no Comando da Era Digital, você entende a IA, as redes e os jogos do zero, para conversar com o seu filho de igual para igual. Se você é professor, o curso Tecnologia na Educação mostra como levar a tecnologia para a sala com propósito, do jeito que o Escola em Órbita fez. E o caderno Aprender a aprender, da coleção Ensine em casa, traz atividades por idade para a criança pensar, testar e lembrar, em vez de só receber a resposta pronta.

As fontes deste artigo

Viveu algo parecido em casa? Conte pra gente. A Clau pode responder em vídeo, sem identificar você.

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