Se acontecer com o seu filho: o que muda com a nova central da PF e o que fazer nos primeiros minutos
O governo criou na Polícia Federal uma central para receber os alertas das plataformas sobre crimes digitais contra crianças. É um avanço. Mas quem percebe primeiro ainda é a família. Veja como agir, guardar provas sem cometer crime e onde denunciar.

Ninguém quer pensar nisso. Eu entendo. Mas eu prefiro que você leia este texto num dia calmo, com um café do lado, do que procure por ele às duas da manhã, com o coração na boca.
Porque, se um dia acontecer com o seu filho, os primeiros minutos fazem diferença. E quase ninguém sabe o que fazer neles.
O que mudou nesta semana
Uma portaria do Ministério da Justiça, a de número 1.312/2026, criou o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente, o CNCA. Ele fica dentro da Polícia Federal, na diretoria que combate crimes cibernéticos, e a notícia saiu no dia 1º de outubro de 2026.
Na prática, o CNCA vira a central que recebe os avisos das plataformas digitais sobre suspeitas de crimes contra crianças e adolescentes, analisa e encaminha para a polícia, o Ministério Público, a Defensoria e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados. As empresas passam a ter prazos para avisar:
- Até 12 horas quando houver risco iminente ou em curso.
- Até 72 horas quando houver indício de material de violência sexual recente.
- Até 7 dias nas demais situações.
O cadastro das empresas começa em até 30 dias, e a implantação completa leva mais dois meses. E um ponto importante, para quem tem medo de vigilância: o centro não pode monitorar usuários nem acessar dados sigilosos. O acesso às notificações é restrito e auditado, e é proibido divulgar dados pessoais das crianças.
É mais uma peça do ECA Digital, a lei que está em vigor desde março de 2026 e obriga as plataformas a proteger crianças e adolescentes.
A central é das plataformas. A conversa é sua.
Repare em quem avisa o CNCA: as empresas. Isso é ótimo, porque elas veem muita coisa que a gente não vê.
Mas a central não substitui a sua denúncia. E, principalmente, não substitui o seu filho contando para você. Quem percebe primeiro que algo está errado quase sempre está dentro de casa: é a mãe que nota o silêncio, o pai que estranha o celular virado para baixo, a avó que ouve um comentário solto no carro.
Por isso eu insisto: tenha a conversa antes. Combine com o seu filho que ele pode te contar qualquer coisa que o deixou com medo ou vergonha na internet, e que ele não vai levar bronca por isso. Sem essa porta aberta, nenhuma central do mundo chega a tempo.
Se acontecer: os primeiros minutos
Vamos ao que importa. Se o seu filho contar, ou se você descobrir, que alguém está ameaçando, chantageando, pedindo fotos, mandando conteúdo sexual ou expondo a imagem dele:
- Acolha primeiro. Antes de qualquer pergunta, diga: "Que bom que você me contou. Você não fez nada de errado. A culpa não é sua." A criança que leva bronca na primeira vez não conta na segunda.
- Não apague nada e não responda. Não confronte o agressor, não negocie, não pague nada. Interagir pode fazer o criminoso apagar as provas e sumir.
- Registre as provas do jeito certo. Anote ou fotografe o nome do perfil, o @, o link, o nome do grupo ou do canal, a plataforma, a data e a hora. Print de conversas de ameaça e chantagem ajuda. Grave a tela mostrando o perfil.
- Atenção: nunca salve nem repasse imagem íntima de criança ou adolescente. Nem para mostrar para a escola, nem para "guardar como prova". Ter esse material é crime pelo artigo 241-B do ECA, mesmo com boa intenção. Registre onde ele está, sem fazer cópia, e entregue a informação às autoridades.
- Denuncie na plataforma. Use o botão de denúncia do aplicativo, do jogo ou da rede social. Pelo ECA Digital, as plataformas são obrigadas a ter canais de denúncia e a agir.
- Denuncie às autoridades. Você pode fazer mais de uma denúncia, e é bom que faça.
- Cuide de quem foi atingido. Depois do susto, vem o cansaço. Procure apoio psicológico, para o seu filho e para você.
- Disque 100: gratuito, anônimo e 24 horas, também pelo WhatsApp (61) 99611-0100.
- SaferNet Brasil: a Central Nacional de Denúncias recebe denúncias anônimas de crimes na internet, e o Canal de Ajuda orienta vítimas e famílias.
- Polícia Civil: a delegacia mais próxima ou a especializada em crimes cibernéticos. Em risco imediato, ligue 190.
- Polícia Federal: pelo Comunica PF, para crimes de abuso sexual infantil na internet com repercussão interestadual ou internacional.
- Conselho Tutelar da sua cidade e Ministério Público.
E se for na escola?
Muitos casos começam ou terminam na turma: montagens, exposição, grupos de humilhação. Avise a escola por escrito, sem enviar as imagens, e peça o protocolo de acolhimento. Se envolver montagem íntima feita com IA, leia Deepfake na escola. Se for um adulto desconhecido se aproximando aos poucos, o passo a passo está em Desconhecidos online.
A conversa antes, por idade
- De 0 a 6 anos. A proteção é do adulto: nada de fotos da criança sem roupa nas redes ou nos grupos, nem "fofas" na banheira. Ensine o nome correto das partes do corpo e a regra de que ninguém pode pedir segredo sobre o corpo dela.
- De 7 a 10 anos. "Se alguém na internet te pedir uma foto, um segredo ou para falar só com você, me conta. Você não vai perder o jogo por isso." Repita sempre. Criança aprende com repetição.
- De 11 a 14 anos. Fale de chantagem, que muitas vezes começa com um elogio e uma foto. Explique que, se acontecer, a vergonha é de quem chantageia, nunca de quem foi enganado. E que pagar ou mandar mais fotos nunca resolve.
- De 15 a 17 anos. Converse sobre consentimento, sobre a lei e sobre o que fazer se um amigo estiver em perigo. Mostre os canais de denúncia. O adolescente que sabe o caminho também protege os outros.
Para guardar
Tenha uma senha com a sua família. Uma palavra que o seu filho pode usar numa mensagem ou ligação quando precisar de ajuda sem conseguir explicar. Parece filme. Funciona.
A lei está criando o caminho da denúncia, e isso é uma boa notícia. Mas a primeira linha de proteção continua sendo um adulto que sabe o que fazer e uma criança que sabe que pode contar. Quando as pessoas têm conhecimento, elas têm poder. Agora você tem.
No curso Proteção Real, eu mostro como os predadores agem, quais sinais observar e exatamente o que fazer em cada situação, sem pânico e sem vigiar o filho. No Pais no Comando da Era Digital, você entende as redes, os jogos e a IA do zero e aprende a proteger a família de golpes, deepfakes e predadores. No Educar na Era Digital, você monta os combinados que deixam a porta aberta para o seu filho contar. E as palestras por idade levam essa conversa para a escola, do jeito certo para cada faixa.
As fontes deste artigo
- A Crítica de Campo Grande. Brasil cria central para denúncias de crimes digitais contra crianças e adolescentes, 01/10/2026.
- SpaceMoney. Governo cria central de proteção a menores no digital, 01/10/2026.
- Antihype. Crimes digitais contra crianças: plataformas terão até 12 horas para avisar a PF, 01/10/2026.
- Planalto. Lei nº 15.211, de 2025 (ECA Digital), 2025.
- Planalto. Lei nº 8.069, de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), art. 241-B, 1990.
- Secom, Governo Federal. Como denunciar conteúdos criminosos online, acesso em 02/10/2026.
- Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Disque 100, acesso em 02/10/2026.
- SaferNet Brasil. Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, acesso em 02/10/2026.
- SaferNet Brasil. Canal de Ajuda, acesso em 02/10/2026.
- TechTudo. Viu algo suspeito nas redes? Saiba como agir e denunciar abuso infantil, 27/09/2026.
- Agência Brasil, Radioagência Nacional. Dicas para reunir provas e denunciar crimes infantis on-line, 01/09/2025.
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